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Aos 90 anos, Hermínio Bello de Carvalho escreve a primeira letra explicitamente gay do cancioneiro do compositor

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Hermínio Bello de Carvalho é o parceiro de Vidal Assis na canção ‘Cabernet Sauvignon’
Isabella Moriconi e Julia Ann Fleiuss / Divulgação
♫ ANÁLISE
♬ Aos 90 anos, o compositor e poeta carioca Hermínio Bello de Carvalho apresenta a primeira música com letra explicitamente gay. Trata-se de “Cabernet Sauvignon”, composição com melodia de Vidal Assis e versos do poético letrista, sorvidos como um vinho pelo cantor Ayrton Montarroyos em gravação feita somente com o toque virtuoso do violão de João Camarero para o álbum comemorativo dos 90 anos de Hermínio Bello de Carvalho. O álbum será lançado amanhã, 27 de fevereiro, com oito músicas e um poema ao longo de nove faixas.
Batizada com o nome de encorpado vinho, “Cabernet Sauvignon” é música nascida de pedido feito pelo próprio Ayrton Montarroyos a Hermínio. “Pedi que compusesse para mim e em menos de uma semana a letra chegou às minhas mãos. Hermínio segue produtivo e sensibilíssimo, como sempre”, celebra Montarroyos, jovem cantor de alma antiga, sintonizado com o universo da MPB.
A simples presença de “Cabernet Sauvignon” como a quinta faixa do álbum “Hermínio Bello de Carvalho 90” deve ser saudada, embora soe como fato já banal em 2026. É que, ao longo do século XX, muitos compositores escreveram músicas sobre amores entre homens sem ousar dizer os nomes desses amores nos versos, por forças de circunstâncias sociais.
Poucos desafiaram a moral da época em que viveram, como Noel Rosa (1910 – 1990), compositor de “Mulato bamba”, samba lançado em 1932 e inspirado na valentia de João Francisco dos Santos (1900 – 1976), o lendário Madame Satã, homossexual que vivia na Lapa, bairro boêmio do centro da cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Há, claro, centenas de canções que, mesmo sem versos explícitos, foram adotadas pela comunidade gay pela aura da letra. O exemplo mais famoso talvez seja “Nature boy” (Eden Ahbez, 1948), canção que atravessou gerações e, no Brasil, ganhou as vozes de cantores como Caetano Veloso e Ney Matogrosso, intérprete de versão em português intitulada “Encantado” e gravada por Ney no álbum “Seu tipo” (1979).
Voltando à obra de Hermínio Bello de Carvalho, o cancioneiro do compositor está repleto de músicas cujas letras podem ser entendidas como abordagens de um amor entre homens, mas o gênero nunca veio explicitado nos versos. Um exemplo é “Cobras e lagartos”, parceria do poeta com Sueli Costa (1943 – 2023) apresentada ao Brasil em 1975 na voz de Maria Bethânia no álbum com a gravação ao vivo do show feito pela cantora com Chico Buarque naquele ano de 1975.
Contudo, é fato que “Cabernet Sauvignon” vai um pouco além. Com versos de alto teor poético, a letra de “Cabernet Sauvignon” explicita que se trata de romance de “dois rapazes de mãos dadas no final”.
Eis a letra da primeira canção (explicitamente) gay da obra de Hermínio Bello de Carvalho:
“Cabernet Sauvignon”
(Vidal Assis e Hermínio Bello de Carvalho, 2026)
“Vem
Teu cansaço ainda cabe no meu colo
Podes te aninhar
Ninguém
Tem nas mãos o amor de quando eu te consolo
Pra te resguardar
Dos medos mais antigos
Das tormentas, dos perigos
Que me acenam do horizonte do teu ser
E és Cabernet Sauvignon e eu fiel sommelier
Que o amor
É uma dor cujo nome é prazer.
Nos meus braços tenho mirra, ouro, incenso
Ramos de alecrim
Viver
É saber que o amor é um alfarrábio imenso
Te aprochegues, sim
E encontro de relance
Num pedaço de romance
Dois rapazes de mãos dadas no final
Se eu durmo e tu dormes, quem há de confirmar se foi real?
Deixa estar
Teu olhar guarda os tons de Chagall”
Capa do álbum ‘Hermínio Bello de Carvalho 90’
Ilustração de Mello Menezes

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